Sobre morar fora

Muitos têm esse sonho: sair do Brasil e viver num país melhor. Melhor educação pros filhos, melhor saúde, melhor segurança, melhor tudo. “Quero qualidade de vida”, a maioria diz, enfurecidos com o caminhar da economia e da política. Mas não têm a menor ideia de como é viver fora e o resultado dessa escolha.

A maioria das pessoas que dizem querer morar fora não imagina que viveriam uma vida parecida com a de suas empregadas domésticas: ter que pegar ônibus pra trabalhar, e as vezes passar um tempão se locomovendo; morar de aluguel; não ter empregada e ter que limpar o próprio vaso sanitário (que absurdo!); não ter a manicure que vai em casa e cobra R$20 pra fazer a mão – ou ter, e pagar MUITO mais caro por isso!; matricular os filhos em escola pública; ir ao hospital público e, sim, muitas vezes esperar horas pelo atendimento.
Quem está acostumado com a vida “bem-bom” de algumas classes do Brasil, dificilmente se acostuma com essa vida mais regrada e menos luxuosa.

Mas, afinal, o que essa pessoa achou que qualidade de vida seria?

Pra mim, é poder ler meu livro tranquilamente no caminho pro trabalho. É poder caminhar até meu restaurante preferido. É poder sair pra beber com os amigos e, ao voltar tarde, contar com o ônibus pontualmente. É poder ter acesso a educação, saúde, segurança etc sem ter que pagar a mais por isso. É ter mais controle sobre a própria vida. É ver os dias passarem. É tirar uns dias de férias sem que o chefe te olhe torto. É poder viajar com a família sem ter que vender um rim.
Devagar. Um dia após o outro. Estação por estação.

Sem parcelamento no cartão, sem Sem-Parar. Sem pressa.

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Transporte público

Quando moramos no Canadá, a coisa que mais nos surpreendeu foi o sistema de transporte público. E aqui não é diferente: extremamente confiável, moderno e cobre muito bem as necessidades da população.

Aqui em Brno não tem metrô, mas tem outros três tipos de veículos: bondes (trams), ônibus e trólebus. Esse três juntos cobrem a cidade de Brno inteira e mais a região metropolitana. Se você quiser ir pra mais longe, como Olomouc, Praga, Viena, tem que pegar o trem, que sai da estação central da cidade.

Estação de trem ao fundo, e estação central de trams (bondes).

Estação de trem ao fundo, e estação central de trams (bondes).

Estação de trem de Brno

Estação de trem de Brno

Pra circular em Brno é preciso ter um bilhete. É possível comprar bilhetes avulsos de 15 minutos (preço: 20 coroas) ou 60 minutos (25 coroas). Com esses bilhetes você precisa obedecer o tempo limite de uso do transporte. E aí você pergunta “mas nossa, como eu vou saber quanto tempo demora de lugar A a B? Tem trânsito, tem mil coisas que podem acontecer e que podem fazer minha viagem ser mais demorada”. Certo? Errado. Em cada parada (aqui chamamos de estação), tem uma placa como essa:

TRAM

Essa placa informa o número da linha, todas as paradas, e esse numerozinho embaixo dos nomes das paradas mostra a quantidade de minutos que você vai demorar até ela. Então tem como você saber exatamente qual bilhete você vai precisar, o de 15 minutos ou o de 60.

Uma outra informação importante que tem nas placas é a tabela de horários em que os trams/ônibus vão passar naquele ponto. Divididos em dias da semana / sábados / domingos e feriados, você pode saber exatamente quanto tempo vai ficar naquele ponto esperando o próximo tram/ônibus. Existe também um aplicativo para celular em que você coloca a estação que está e a estação de destino, e ele te mostra sua rota, preço, e em quantos minutos o próximo vai passar. É excelente para os dias de frio, quando você não quer ficar 10 minutos no ponto esperando. É só olhar antes de sair de casa e se programar pra sair.

Os bilhetes podem ser comprados nas máquinas que tem em várias estações, ou em bancas que ficam próximas a algumas estações ou nas “lojas” do DPMB (Brno City Transport Company) pela cidade. Dá pra comprar também por SMS e direto com o motorista.Com o motorista é mais caro e não são todos que vendem, então é sempre bom entrar no tram/ônibus já com seu bilhete.

Na máquina da esquerda é possível comprar bilhetes com cartões de crédito e débito. Na da direita, compra-se com moedas.

Na máquina da esquerda é possível comprar bilhetes com cartões de crédito e débito. Na da direita, compra-se com moedas.

É possível também comprar bilhetes de 90 minutos e 24 horas. Mas pra quem mora aqui e sai pra trabalhar todos os dias, compensa muito comprar o bilhete mensal (540 coroas = 64 reais), trimestral (1410 coroas = 167 reais) ou anual (4950 coroas = 586 reais). Excelente o preço, não? Andar a vontade por um mês inteiro por 64 reais! Estudantes, que são um grupo expressivo de mais de 80 mil em Brno, têm tarifas especiais.

Aqui não tem cobrador, então você mesmo valida seu bilhete ao entrar no tram/ônibus em pequenas máquinas que ficam perto das portas. Se você tem um desses bilhetes de longa duração (semanal, mensal etc), não precisa validá-lo cada vez que entrar mas tem que estar com ele a todo momento.

A fiscalização se dá através de fiscais que passam aleatoriamente pelos trams/ônibus e pedem pra ver os bilhetes. Eles não usam uniforme então não tem como você saber quem são, mas eles mostram um crachá e um distintivo quando abordam as pessoas. A multa pra quem não tem bilhete validado na hora da abordagem é de 800 coroas (94 reais), que ele recolhe no ato + o valor do bilhete. Se a pessoa não tiver o dinheiro, ele acompanha até um caixa eletrônico pra pessoa fazer o saque e pagar. Se mesmo assim a pessoa não tiver na hora, eles dão a multa em papel e a pessoa tem até 5 dias úteis pra ir fazer o pagamento nos escritórios da DPMB. Se passar de 5 dias úteis, a multa sobe pra 1500 coroas (177 reais).

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Já aconteceu de eu estar no tram e passar 3 fiscais diferentes durante meu trajeto, mas na maioria das vezes que eu ando, não vejo fiscal nenhum. Realmente não tem como saber, mas das vezes que eu vi fiscais eu vi alguém tomando multa.

É possível levar animais de estimação (aqui em Brno = cachorros) nos ônibus e trams, bem como carrinhos de bebê e malas de viagem. Os veículos mais modernos são preparados também para o transporte de passageiros em cadeiras de rodas.

Eu gosto muito do sistema de transporte daqui. Tirando os dias de muita neve (nesse inverno, até agora, só teve um), é extremamente pontual. Já peguei tram lotado, mas nem se compara à lotação que eu estava acostumada a pegar em São Paulo ou Campinas. Como tem como os passageiros saberem exatamente em quantos minutos vem o próximo, não tem porquê todo mundo se abarrotar no primeiro que aparece. As pessoas se organizam bem de forma que não encha muito.

O transporte em números:

– O sistema de transporte público de Brno consiste em 12 linhas de tram, 13 linhas de trólebus, 40 linhas de ônibus diurnas e 11 linhas noturnas.

– Existem vários modelos de trams, mas o maior deles tem capacidade de 231 passageiros.

– Uma média de 113 153 000 passageiros são transportados por ano na cidade.

Tram (bonde)

Tram (bonde)

Trólebus

Trólebus

Veterinários

Bonitão

Bonitão

 

Se tem uma coisa que eu gosto no Brasil é o nível dos veterinários! São excelentes, atenciosos e se especializam muito. O Charlie já passou com oftalmo, endócrino, cardio, dermato, ortopedista e é claro, clínico geral. Em 4 anos que vivemos no Brasil com ele nunca tivemos nenhuma experiência negativa com veterinário. E, infelizmente, com 4 meses de Brno, já tivemos uma.

O Charlie é um buldogue inglês e essa raça apresenta muitos problemas congênitos: respiratório, cardiológico, de pele, etc. A gente tenta sempre fazer de tudo pra amenizar esses problemas pra que ele tenha uma vida saudável enquanto for possível. Em um dos check-ups que fizemos no Brasil, foi constatado que o Charlie tem uma tendência a ter hipotiroidismo, então o controle disso com dieta é extremamente importante. A ração que ele come é super premium e às vezes precisa daquelas rações veterinárias pra controlar algum problema pontual.

Pois bem, quando chegamos aqui em Setembro do ano passado, demoramos pra achar essas rações que ele estava acostumado a comer, então foi um troca-troca por uns dois meses, o que causou uma alergia que, por sua vez, causou uma inflamação/infecção no ouvido. Como já tínhamos achado a ração correta, achamos que isso juntamente com um remédio que trouxemos do Brasil e que ele já usava de vez quando fosse tratar do problema. Mas não tratou, e uma outra coisa surgiu, e nesse meio tempo algumas vacinas venceram, então era hora de visitar o veterinário.

Eu queria achar alguma clínica perto de casa, pra poder ir com ele à pé. E conto o porquê: Aqui, os cachorros são obrigados a usar focinheira quando andam em transporte público, o que é ótimo e seguro para todos. Porém, o Charlie é um buldogue e portanto não tem focinho! Não tenho como colocar focinheira nele porque ele respira pela boca, então fica tudo mais complicado de ser arranjado. Por isso eu queria alguma clínica que fosse perto o suficiente pra irmos andando. E achei uma aqui na minha rua mesmo, duas quadras acima. E fui lá. E não gostei.

A médica falava inglês básico, o que é ótimo! Então expliquei pra ela tudo o que eu precisava e ela começou a examinar. Mas fez tudo muito superficialmente. Não colheu nenhuma amostra do ouvido pra investigar do que se trata; a mesa onde o animal fica não estava higienizada; as unhas dela eram pretas de sujeira, e ela encostou esse dedo imundo no olho do Charlie pra “examinar”, mas mesmo eu apontando o problema várias vezes, ela só olhou e não fez nenhum exame sequer, nem olhou com aquela luzinha nem nada. Fiquei uns 10 minutos no consultório e olhe lá. Ela só limpou o ouvido – de uma forma horrível, diga-se de passagem: colocou algodão em volta de um palito de metal e enfiou com tudo no ouvido dele. Ele, que tem alta tolerância a dor, estava demonstrando sentir muita. Saí de lá horrorizada, com dois remédios que ela mal explicou como aplicam e 800 coroas a menos.

Fiquei super chateada com a situação e publiquei no Facebook, que choveu de comentários. Um dos comentários foi da Silvie, a minha amiga Tcheca que mora em Campinas, e que é veterinária! Como eu não pensei em falar com ela antes? Ela me indicou uma amiga dela da faculdade que poderia me ajudar, me colocou em contato com essa médica, que prontamente se dispôs a ajudar e me indicou um serviço de transporte de animais que existe em Brno. Esse serviço é fantástico: eles atendem emergências principalmente – quando há algum acidente de trânsito que tenha algum animal envolvido, a polícia não mexe no animal e esse serviço é acionado. É tipo um bombeiros/resgate de animais. Mas eles fazem transporte para consultas e tratamentos também, por agendamento.

Então hoje pela manhã um carro super bem equipado veio até minha porta, o motorista me ajudou a colocar o Charlie dentro, me deu instruções de como é o transporte, me esperou pelo tempo da consulta e me trouxe de volta. Não é muito barato, mas depende da distância.

A consulta do Charlie foi excepcional: dois médicos super atenciosos trabalhando juntos, inglês super bom, fizeram um check-up completo, exames no próprio consultório (coleta do ouvido que já viram na hora o que era, e também exames oftalmológicos), me ensinaram a fazer a aplicação dos remédios, me deram uma amostra de uma outra ração que vamos introduzir, pesaram o Charlie, viram tudo tudo mesmo. Gostei muito!

 

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Acredito que existem profissionais bons e ruins em todos os lugares, de todas as áreas. Eu só dei azar de ter uma péssima experiência logo de cara. Mas agora fico mais tranquila sabendo onde eu posso ir e que tem como contratar esse serviço de transporte também.

Links:

Clínica Eden (aceita cartão!!!)

Serviço de transporte e ambulância