E lá se foi o primeiro…

Dia 09 de setembro de 2015 acabou de acabar.
À essa hora, no ano passado, Lucas e eu dormíamos: exaustos pela correria do dia e pela ansiedade de tudo que estava pra acontecer. Os passeios pelo Google Street View haviam acabado. Agora era tudo pra valer.

A vida tem sido generosa conosco. Nosso caminho tem sido repleto de aventuras, descobertas, aprendizados, amizades novas que viram antigas que viram amizade à distância. As nossas famílias sempre nos apoiando, nos encorajando, nos dando o suporte que precisamos. A saudade vem e vai. Skype, Facetime e WhatsApp: o que seríamos sem vocês?

Esse primeiro ano aqui foi uma amostra de que vem muita coisa boa por aí. Espero ainda ter muitas histórias e dicas pra contar pra vocês aqui no blog. Obrigada por acompanharem conosco essa nova vida. É um prazer compartilhar com vocês esse momento tão legal.

Um brinde à Brno, à República Tcheca! Muito obrigada!

Na Zdraví!
Saúde!
Cheers!

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Mudança de Hábito

Hoje conversei com uma aluna sobre algumas das diferenças culturais que mais senti por aqui e resolvi compartilhar aqui no blog também.

Eu nunca havia pisado na Europa antes de virmos em definitivo no ano passado, então não sabia muito o que esperar. O velho continente, um lugar tão explorado há tanto tempo, que passou por tantas mudanças na geografia, política e cultura, imagina então nos costumes?

Uma coisa que notei logo quando cheguei foi como as pessoas não “sabem” andar de ônibus. Aqui é possível entrar no ônibus/tram por qualquer porta, porque não tem cobrador. Então as pessoas entram e, ao invés de irem se espalhando pelo espaço do corredor pra dar espaço pras outras pessoas que ainda vão entrar, elas simplesmente param bem nos espaços das portas. E o mais incrível? Ninguém se incomoda com isso. Quem quiser ir mais adentro, pede licença e passa. Ninguém olha feio, ninguém olha torto, nem xinga ou pede pra dar mais espaço. Cada um no seu quadrado.
Na hora de descer no ponto, a mesma coisa: peça licença e passe pelo espacinho que vão te dar.

Outra coisa que notei, seguindo a mesma linha, foi que a maioria não pede ajuda ou gosta de ser ajudado. Principalmente as pessoas mais velhas. Já vi senhoras com uma super dificuldade de subir no ônibus e ninguém mexe o dedo pra ajudar. Já vi gente caindo no meio da rua com várias pessoas por perto e não vi aquele impulso de ajudar em ninguém. Eu tenho que até lutar contra esse impulso às vezes, porque primeiro, não sei nem falar “opa, quer uma ajuda?” em Tcheco e, segundo, não sei qual vai ser a reação da pessoa ao receber essa ajuda não esperada.

Aqui, o lema é: Cada um com seu pobrema  problema. Se vira. Dá seus pulos. O que tem seu lado bom, porque isso vale pra qualquer coisa, inclusive se você for assim ao mercado:

Sem título

Ninguém vai dar a mínima

Um amigo nosso, por exemplo, já viu uma moça levantando a saia pra arrumar a meia calça, no meio da rua. Ele notou porque não é daqui então achou estranho, mas ninguém mais percebeu ou disse alguma coisa.

É claro que, se você pedir informação pra alguém eles vão ajudar, ou pelo menos tentar. Eu já pedi uma vez pra uma senhora numa banca de jornal, e mesmo ela não falando nada de Inglês e eu só sabendo falar “autobus IKEA” em Tcheco, ela se esforçou e conseguiu me ajudar. Quando vamos a restaurantes em que os atendentes não falam Inglês, eles sempre se esforçam pra entender nosso Tcheco e “mimiquês”.

Já aconteceu de mendigo me falar “have a nice day”. Já aconteceu de garçons me ignorarem completamente em restaurante. Vai da pessoa, do humor dela no dia, do meu humor no dia.

A “indiferença” do tcheco é algo que estou aprendendo que não é pessoal. É puramente cultural.

Uma outra diferença nos hábitos aqui: sabe quando você vai contar alguma coisa com os dedos da mão? A gente faz assim:

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Mas, aqui, eles fazem assim:

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Até hoje eu me perco nisso e faço a maior confusão quando estou comprando alguma coisa.  Não sei a razão disso, mas pra mim é quase um contorcionismo. Fazer o 4 assim é muito difícil!!!

Uma outra coisa, e essa eu demorei um pouco pra perceber, é que quando você entra nos bares/restaurantes, você mesmo acha uma mesa e senta. Não tem essa de esperar alguém pra te acompanhar até a mesa. É aquele negócio: se vira aí colega.

O que mais?

Aqui fala-se “tchau” no cumprimento e na despedida, como em Italiano.

É considerado rude não dizer “dobrou chut’ ” (bom apetite) antes de comer.

São só 6 meses por aqui e tenho certeza que com o passar do tempo vou descobrindo mais diferenças. Deixe um comentário se você, leitor de Brno, se lembrar de mais alguma coisa desse tipo!

É isso aí.

Na shledanou!

Sobre morar fora

Muitos têm esse sonho: sair do Brasil e viver num país melhor. Melhor educação pros filhos, melhor saúde, melhor segurança, melhor tudo. “Quero qualidade de vida”, a maioria diz, enfurecidos com o caminhar da economia e da política. Mas não têm a menor ideia de como é viver fora e o resultado dessa escolha.

A maioria das pessoas que dizem querer morar fora não imagina que viveriam uma vida parecida com a de suas empregadas domésticas: ter que pegar ônibus pra trabalhar, e as vezes passar um tempão se locomovendo; morar de aluguel; não ter empregada e ter que limpar o próprio vaso sanitário (que absurdo!); não ter a manicure que vai em casa e cobra R$20 pra fazer a mão – ou ter, e pagar MUITO mais caro por isso!; matricular os filhos em escola pública; ir ao hospital público e, sim, muitas vezes esperar horas pelo atendimento.
Quem está acostumado com a vida “bem-bom” de algumas classes do Brasil, dificilmente se acostuma com essa vida mais regrada e menos luxuosa.

Mas, afinal, o que essa pessoa achou que qualidade de vida seria?

Pra mim, é poder ler meu livro tranquilamente no caminho pro trabalho. É poder caminhar até meu restaurante preferido. É poder sair pra beber com os amigos e, ao voltar tarde, contar com o ônibus pontualmente. É poder ter acesso a educação, saúde, segurança etc sem ter que pagar a mais por isso. É ter mais controle sobre a própria vida. É ver os dias passarem. É tirar uns dias de férias sem que o chefe te olhe torto. É poder viajar com a família sem ter que vender um rim.
Devagar. Um dia após o outro. Estação por estação.

Sem parcelamento no cartão, sem Sem-Parar. Sem pressa.