A Páscoa que não é Páscoa

Tô pra ver Páscoa diferente como aqui!

Desde que chegamos eu ouço essa história de que a tradição de Páscoa aqui não é nada “convencional”, que envolve chicotes e bebidas, mas não tinha parado pra ler a respeito até agora.

A Páscoa no Brasil é um feriado religioso, cristão. A sexta-feira é da Paixão, que foi quando Jesus foi crucificado, e o domingo é da Ressurreição, que foi quando Jesus ressuscitou. Nessa época, lembra-se do sacrifício de Deus, que enviou Jesus para morrer por nossos pecados, e fala-se do Recomeço.

Pois bem. Aqui, 80% da população é atéia, e isso se deve ao fato de que, durante o regime comunista, grupos religiosos eram atacados e seus membros, presos. Houve uma repressão religiosa muito grande nessa época e o partido comunista forçava na população uma ideia de “ateísmo científico”. E tantos anos depois a República Tcheca se tornou o país mais não-religioso da Europa, com esse número enorme de ateus.
Logo, a Páscoa não passa de uma tradição antiga com cópias de rituais pagãos.

Os costumes desta data dão-se início na Quinta-feira, que é a chamada “Quinta-Feira Verde”, que era a cor das vestimentas medievais usadas nesse dia, o dia que antecede a sexta-feira santa. Atualmente, ninguém se veste dessa cor, mas os bares e restaurantes servem cerveja verde!

Todos no restaurante ganharam uma cerveja verde na Quinta-feira!

Todos no restaurante ganharam uma cerveja verde na Quinta-feira!

A sexta-feira não é santa. Nem feriado é. Não passa de um dia comum de trabalho. (UPDATE: A partir de 2016 a sexta-feira é também feriado. Yupi!!)
O sábado e o domingo também são dias normais. As crianças usam esses dias para se prepararem para a segunda-feira, que é a segunda de Páscoa. Durante o sábado e o domingo, elas preparam os ovos, que são pintados, e simbolizam o recomeço, uma nova vida. E os meninos preparam as pomlázkas, e é aí que a coisa começa a ficar diferente.

As pomlázkas são um tipo de chicote feito com alguns galhos de uma árvore. Os galhos são trançados e na ponta são amarradas algumas fitas coloridas.

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Na segunda-feira de Páscoa (feriado!), os meninos e rapazes saem de casa em casa e são recebidos pelas moças. Eles, então, chicoteiam (de leve) as pernas das moças enquanto recitam poemas de Páscoa. E elas, por sua vez, dão a eles uma prenda, que pode ser um ovo colorido ou um doce, e amarram uma fita no chicote. Depois de várias visitas, eles estão com o cesto cheio de ovos e o chicote cheio de fitas coloridas.

toma chicotada!

Toma chicotada!

Com o tempo essa tradição foi mudando, e hoje em dia as moças dão um ‘shot’ de bebida como prenda (uma bebida típica, um tipo de pinga de ameixa), o que acaba fazendo com que, depois de passarem por várias casas, os rapazes estejam bêbados e acabam esquecendo que a chicoteada é somente simbólica. Essa prática é feita por homens mais velhos também, mas geralmente somente entre os membros da própria família.

No passado, as esposas dos fazendeiros usavam a pomlázka para “chicotear” todos os animais da fazenda, bem como os moradores, como um símbolo que traz fertilidade.

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A pomlázka, ovos coloridos e slivovice (bebida de ameixa): um resumo da Páscoa na República Tcheca.

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Essa moça não parece estar gostando dessa ideia de chicote de páscoa

E assim é comemorada a Páscoa aqui na República Tcheca.

Sinceramente acho bem esquisita essa história de chicote e bebida, mas é assim que é feito por aqui e as pessoas têm muito orgulho das suas tradições.

Feliz Páscoa!
Veselé Velikonoce!

Mudança de Hábito

Hoje conversei com uma aluna sobre algumas das diferenças culturais que mais senti por aqui e resolvi compartilhar aqui no blog também.

Eu nunca havia pisado na Europa antes de virmos em definitivo no ano passado, então não sabia muito o que esperar. O velho continente, um lugar tão explorado há tanto tempo, que passou por tantas mudanças na geografia, política e cultura, imagina então nos costumes?

Uma coisa que notei logo quando cheguei foi como as pessoas não “sabem” andar de ônibus. Aqui é possível entrar no ônibus/tram por qualquer porta, porque não tem cobrador. Então as pessoas entram e, ao invés de irem se espalhando pelo espaço do corredor pra dar espaço pras outras pessoas que ainda vão entrar, elas simplesmente param bem nos espaços das portas. E o mais incrível? Ninguém se incomoda com isso. Quem quiser ir mais adentro, pede licença e passa. Ninguém olha feio, ninguém olha torto, nem xinga ou pede pra dar mais espaço. Cada um no seu quadrado.
Na hora de descer no ponto, a mesma coisa: peça licença e passe pelo espacinho que vão te dar.

Outra coisa que notei, seguindo a mesma linha, foi que a maioria não pede ajuda ou gosta de ser ajudado. Principalmente as pessoas mais velhas. Já vi senhoras com uma super dificuldade de subir no ônibus e ninguém mexe o dedo pra ajudar. Já vi gente caindo no meio da rua com várias pessoas por perto e não vi aquele impulso de ajudar em ninguém. Eu tenho que até lutar contra esse impulso às vezes, porque primeiro, não sei nem falar “opa, quer uma ajuda?” em Tcheco e, segundo, não sei qual vai ser a reação da pessoa ao receber essa ajuda não esperada.

Aqui, o lema é: Cada um com seu pobrema  problema. Se vira. Dá seus pulos. O que tem seu lado bom, porque isso vale pra qualquer coisa, inclusive se você for assim ao mercado:

Sem título

Ninguém vai dar a mínima

Um amigo nosso, por exemplo, já viu uma moça levantando a saia pra arrumar a meia calça, no meio da rua. Ele notou porque não é daqui então achou estranho, mas ninguém mais percebeu ou disse alguma coisa.

É claro que, se você pedir informação pra alguém eles vão ajudar, ou pelo menos tentar. Eu já pedi uma vez pra uma senhora numa banca de jornal, e mesmo ela não falando nada de Inglês e eu só sabendo falar “autobus IKEA” em Tcheco, ela se esforçou e conseguiu me ajudar. Quando vamos a restaurantes em que os atendentes não falam Inglês, eles sempre se esforçam pra entender nosso Tcheco e “mimiquês”.

Já aconteceu de mendigo me falar “have a nice day”. Já aconteceu de garçons me ignorarem completamente em restaurante. Vai da pessoa, do humor dela no dia, do meu humor no dia.

A “indiferença” do tcheco é algo que estou aprendendo que não é pessoal. É puramente cultural.

Uma outra diferença nos hábitos aqui: sabe quando você vai contar alguma coisa com os dedos da mão? A gente faz assim:

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Mas, aqui, eles fazem assim:

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Até hoje eu me perco nisso e faço a maior confusão quando estou comprando alguma coisa.  Não sei a razão disso, mas pra mim é quase um contorcionismo. Fazer o 4 assim é muito difícil!!!

Uma outra coisa, e essa eu demorei um pouco pra perceber, é que quando você entra nos bares/restaurantes, você mesmo acha uma mesa e senta. Não tem essa de esperar alguém pra te acompanhar até a mesa. É aquele negócio: se vira aí colega.

O que mais?

Aqui fala-se “tchau” no cumprimento e na despedida, como em Italiano.

É considerado rude não dizer “dobrou chut’ ” (bom apetite) antes de comer.

São só 6 meses por aqui e tenho certeza que com o passar do tempo vou descobrindo mais diferenças. Deixe um comentário se você, leitor de Brno, se lembrar de mais alguma coisa desse tipo!

É isso aí.

Na shledanou!